As doenças gengivais são as condições bucais mais comuns no Brasil — e, ao mesmo tempo, as mais negligenciadas. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil), cerca de 75% dos adultos brasileiros apresentam algum grau de doença periodontal. A gengivite, quando não tratada, evolui para periodontite, que é a principal causa de perda dentária em adultos acima de 35 anos.
Entender a diferença entre essas duas condições, reconhecer os sinais precocemente e adotar medidas preventivas pode salvar seus dentes. Neste artigo, explicamos tudo sobre gengivite e periodontite: causas, sintomas, tratamentos e prevenção no contexto brasileiro.
O Que É Gengivite
A gengivite é a inflamação da gengiva causada pelo acúmulo de placa bacteriana (biofilme dental) na linha entre o dente e a gengiva. É o estágio inicial da doença periodontal e, quando tratada a tempo, é completamente reversível.
Sinais de gengivite:
- Gengiva vermelha, inchada e sensível
- Sangramento ao escovar ou usar fio dental
- Mau hálito persistente (halitose)
- Gengiva com aspecto brilhante (edema)
- Sem dor na maioria dos casos (o que atrasa o diagnóstico)
O principal fator causador é a higiene bucal inadequada. A placa bacteriana não removida se mineraliza em 48 a 72 horas, formando o tártaro (cálculo dental), que só pode ser removido pelo dentista. Se você tem sangramento gengival frequente, não ignore — consulte um profissional. Veja como escolher um dentista confiável para acompanhamento.
O Que É Periodontite
A periodontite é a evolução da gengivite não tratada. A infecção avança para as estruturas de suporte do dente: ligamento periodontal, cemento radicular e osso alveolar. Diferente da gengivite, a periodontite causa danos irreversíveis.
Sinais de periodontite:
- Todos os sinais da gengivite, mais:
- Retração gengival (dentes parecem "mais longos")
- Formação de bolsas periodontais (espaço entre gengiva e dente)
- Mobilidade dental (dentes amolecidos)
- Mudança na posição dos dentes
- Pus entre dente e gengiva
- Dor ao mastigar em estágios avançados
A periodontite é classificada em estágios pela Academia Americana de Periodontologia:
| Estágio | Gravidade | Perda Óssea | Mobilidade | Reversível? |
|---|---|---|---|---|
| I | Inicial | Até 15% | Não | Controle |
| II | Moderada | 15% a 33% | Não | Controle |
| III | Severa | Acima de 33% | Sim (classe I-II) | Parcial |
| IV | Avançada | Acima de 50% | Sim (classe III) | Cirúrgico |
Nos estágios III e IV, a prótese dentária pode ser necessária para repor os dentes perdidos.
Fatores de Risco Para Doenças Periodontais
Além da higiene inadequada, diversos fatores aumentam o risco de desenvolver gengivite e periodontite:
- Tabagismo — principal fator de risco modificável. Fumantes têm 3 a 6 vezes mais chance de desenvolver periodontite
- Diabetes mellitus — a hiperglicemia prejudica a resposta imunológica e a cicatrização gengival
- Predisposição genética — cerca de 30% da susceptibilidade à periodontite é genética
- Estresse — reduz a imunidade e aumenta a inflamação sistêmica
- Alterações hormonais — gravidez, puberdade e menopausa aumentam a sensibilidade gengival
- Medicamentos — alguns anti-hipertensivos, anticonvulsivantes e imunossupressores causam crescimento gengival
- Respiração bucal — resseca a gengiva e favorece o acúmulo de placa
- Aparelhos ortodônticos — dificultam a higienização se não houver cuidado redobrado. Saiba mais sobre aparelhos ortodônticos: tipos e custos
Diagnóstico: Como o Dentista Avalia a Gengiva
O diagnóstico periodontal é feito pelo cirurgião-dentista ou periodontista através de:
- Exame clínico visual — avaliação da cor, textura, formato e sangramento gengival
- Sondagem periodontal — medição da profundidade das bolsas com sonda milimetrada. Bolsas acima de 3mm indicam doença periodontal
- Radiografias periapicais — avaliam a perda óssea ao redor dos dentes
- Radiografia panorâmica — visão geral de toda a arcada
- Índice de placa e sangramento — quantificam a gravidade da doença
O exame periodontal completo é recomendado pelo CFO para todos os adultos a partir dos 30 anos, mesmo sem sintomas evidentes.
Tratamento da Gengivite
O tratamento da gengivite é simples e altamente eficaz quando iniciado cedo:
1. Profilaxia profissional (limpeza)
- Remoção de tártaro com ultrassom e curetagem manual
- Polimento dental para alisar a superfície
- Aplicação de flúor profissional
- Frequência: a cada 6 meses (ou 4 meses em casos de recorrência)
- Preço médio: R$ 150 a R$ 400
2. Instrução de higiene oral
- Técnica de escovação adequada (técnica de Bass modificada)
- Uso correto do fio dental
- Escova interdental para espaços maiores
- Enxaguante bucal sem álcool como complemento
3. Controle de fatores de risco
- Cessação do tabagismo
- Controle glicêmico em diabéticos
- Ajuste de medicamentos que causam crescimento gengival
Com tratamento adequado, a gengivite se resolve em 2 a 4 semanas. A gengiva volta à coloração rosa e o sangramento cessa.
Tratamento da Periodontite
O tratamento da periodontite é mais complexo e varia conforme o estágio:
Tratamento não-cirúrgico
- Raspagem e alisamento radicular (RAR) — remoção do tártaro abaixo da gengiva, dentro das bolsas periodontais. Feito com anestesia local, em 2 a 4 sessões. Preço médio: R$ 200 a R$ 600 por quadrante
- Antibioticoterapia local — gel de clorexidina ou fibras de tetraciclina aplicados dentro das bolsas
- Antibioticoterapia sistêmica — amoxicilina + metronidazol em casos de periodontite agressiva
Tratamento cirúrgico
Indicado quando as bolsas periodontais não respondem ao tratamento conservador:
- Cirurgia a retalho — abertura da gengiva para limpeza direta da raiz e osso
- Enxerto ósseo — reposição de osso perdido com material sintético ou autólogo
- Regeneração tecidual guiada (RTG) — uso de membranas para estimular a regeneração óssea
- Enxerto gengival — cobertura de retrações gengivais com tecido do palato
Os custos de cirurgia periodontal variam de R$ 800 a R$ 3.000 por região tratada. Consulte nosso guia de quanto custa ir ao dentista para valores detalhados.
Manutenção periodontal
Após o tratamento ativo, o paciente entra em fase de manutenção:
- Consultas a cada 3 a 4 meses no primeiro ano
- Reavaliação com sondagem periodontal
- Profilaxia e raspagem de manutenção
- Monitoramento radiográfico anual
A periodontite não tem cura definitiva — ela é controlada. O acompanhamento contínuo é essencial para evitar recidivas.
Prevenção: Como Proteger Suas Gengivas
A prevenção é a estratégia mais eficaz e econômica contra doenças periodontais:
- Escove os dentes 3 vezes ao dia com escova macia e pasta com flúor
- Use fio dental diariamente — 70% das superfícies dentais não são alcançadas pela escova
- Faça profilaxia profissional a cada 6 meses
- Não fume — parar de fumar reduz o risco periodontal em 50% após 1 ano
- Controle o diabetes — hemoglobina glicada abaixo de 7% reduz complicações periodontais
- Mantenha alimentação equilibrada — vitamina C, vitamina D e cálcio fortalecem as gengivas
- Gerencie o estresse — cortisol elevado suprime a imunidade gengival
- Observe os sinais — sangramento ao escovar NÃO é normal e exige atenção
Para um cuidado completo da saúde bucal da família, incluindo os pequenos, veja nossas dicas de saúde bucal para crianças.
Relação Entre Periodontite e Doenças Sistêmicas
Pesquisas científicas dos últimos 20 anos demonstraram que a periodontite está associada a diversas condições sistêmicas:
- Doenças cardiovasculares — bactérias periodontais entram na corrente sanguínea e contribuem para aterosclerose
- Diabetes — relação bidirecional: diabetes agrava a periodontite, e periodontite dificulta o controle glicêmico
- Parto prematuro e baixo peso ao nascer — gestantes com periodontite têm risco até 7 vezes maior
- Doenças respiratórias — aspiração de bactérias periodontais pode causar pneumonia, especialmente em idosos
- Artrite reumatoide — compartilha mecanismos inflamatórios com a periodontite
- Doença de Alzheimer — estudos recentes associam a bactéria Porphyromonas gingivalis à neurodegeneração
Tratar a periodontite não é apenas preservar os dentes — é proteger a saúde geral do organismo.
Perguntas Frequentes
Gengiva sangrando ao escovar é normal?
Não, sangramento gengival nunca é normal. É o sinal mais precoce de gengivite e indica que há inflamação causada por acúmulo de placa bacteriana. Muitas pessoas param de escovar a região que sangra, o que piora o quadro. O correto é intensificar a escovação (com cerdas macias) e o uso de fio dental na área afetada, além de agendar uma consulta com o dentista para avaliação e profilaxia.
Periodontite tem cura?
A gengivite é completamente reversível com tratamento adequado. Já a periodontite, que causa perda óssea, não é curável no sentido estrito — o osso perdido não se regenera naturalmente. Porém, a doença pode ser controlada e estabilizada com tratamento periodontal e manutenção rigorosa. Em alguns casos, técnicas de regeneração óssea guiada conseguem recuperar parte do osso perdido.
Quanto custa o tratamento de periodontite no Brasil?
O custo varia conforme a gravidade. Uma raspagem e alisamento radicular (tratamento não-cirúrgico) custa em média R$ 200 a R$ 600 por quadrante (a boca é dividida em 4 quadrantes). Cirurgias periodontais custam de R$ 800 a R$ 3.000 por região. Planos odontológicos com cobertura periodontal podem cobrir parte ou totalidade do tratamento. O SUS também oferece tratamento periodontal básico nos CEOs.
Quem tem periodontite pode colocar implante?
Sim, mas somente após o controle da doença periodontal ativa. Colocar implantes em uma boca com periodontite não tratada resulta em peri-implantite (inflamação ao redor do implante) e perda do implante. O periodontista deve tratar toda a infecção, estabilizar a doença e aguardar a cicatrização antes de encaminhar para o implantodontista. Confira mais sobre implante dentário: preço e tipos.
Crianças podem ter gengivite?
Sim, a gengivite é comum em crianças e adolescentes, especialmente durante a troca de dentes e na puberdade (devido às alterações hormonais). A principal causa é a escovação inadequada. Pais devem supervisionar a escovação até os 8-10 anos de idade e manter consultas regulares com o odontopediatra. A gengivite na infância, se não tratada, pode evoluir para problemas periodontais na idade adulta.


